setembro 27, 2006

Consciência humana

A CONSCIÊNCIA HUMANA
Nada há de mais aterrador que essa espécie de contemplação. A vista do espírito não se perturba tanto e não se enche de tanta treva quando pousa em objeto diverso do homem; não pode fixar-se em nada que seja mais terrível, mais complicado, mais misterioso e infinito. Há um espetáculo maior que o mar e mais vasto que o céu: o interior da alma.Compor o poema da consciência humana, ainda que de um só homem, ainda que do mais mesquinho dos homens, seria fundir todas as epopéias numa epopéia superior e definitiva. A consciência é o caos da quimera, dos apetites desordenados e das tentações; a guarida dos sonhos e dos desvarios; o antro das idéias que nos envergonham, o pandemônio dos sofismas, o campo de batalha das paixões. Penetrai em determinadas horas o semblante lívido de um ser humano que reflexiona, e mirai o seu interior, mirai aquela alma, mirai aquela obscuridade...Sob o silêncio exterior, ali se travam combates gigantescos, como em Homero, luta de dragões e de hidras, e nuvens e fantasmas como em Milton, e círculos dantescos. Coisa sombria essa que todo homem leva dentro em si mesmo e por meio da qual aquilata desesperadamente os atos de sua vontade e as ações diversas de sua vida!
VITOR HUGO – do livro “Os Miseráveis”